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No meu Palato

No meu Palato

Quinta do Monte Xisto | Ser ou não ser? Acto III, Cena I. Muito mais que uma questão.

"Olha para as minhas flores, há alecrim para ti, e isso teremos de recordar. Por favor: reza, ama, lembra-te!!!" William Shakespeare 

Quinta do Monte Xisto"Ser ou não ser" é a frase de abertura de um discurso solilóquio do príncipe Hamlet na chamada "cena do convento" da mundialmente famosa peça de William Shakespeare, Hamlet. Acto III, Cena I. Existem muitas "interpretações" desse discurso, mas as mais aceites estão relacionadas com soluções viáveis para alguns problemas, com a nossa atitude em relação a um evento de fractura, se devemos arriscar ou permanecer passivos perante crises e se a recompensa merece determinado sacrifício. 

Quinta do Monte XistoHamlet estava a considerar as dificuldades e a ponderar um estado "de ser" versus um estado de "não ser" - estar vivo e estar morto. A peça que foi escrita em 1599-1601, parece também querer introduzir uma nova planta/erva como símbolo do amor: o alecrim.  Se criássemos uma sondagem para os (imensos ;)) seguidores do blogue e perguntássemos que planta/flor simboliza o amor,   a vencedora seria, com certeza, a rosa e ninguém responderia alecrim. 

Quinta do Monte XistoEssa nova representação do amor em forma de alecrim surge nas várias representações de Ofélia no texto, na arte, na música, na poesia e nos romances inspirados pela sua personagem em Hamlet. A cena, genial, em que ela aparentemente enlouquece e oferece flores ao público é particularmente interessante. Embora Shakespeare não inclua as instruções de palco que ditam a quem é que Ophelia daria as suas flores, ela está no palco com Gertrude, Claudius e Laertes. Para acentuar a sua aparente loucura, Ofélia parece confundir Laertes (seu irmão) com Hamlet (seu apaixonado). 

Quinta do Monte XistoNessa cena, Ofélia descreve-nos o alecrim como sendo algo "para recordar". Já na Grécia antiga, os alunos usavam o alecrim para reavivar a memória, mas só recentemente essas teorias foram comprovadas cientificamente, levando a um aumento nas vendas de alecrim durante a época de exames. A sua antiga associação com Vénus, relaciona-o com o amor (a etimologia da palavra é do latim "ros" e "marinus" - orvalho do mar: Vénus nasceu da espuma do mar). Um desenvolvimento mais religioso/cristão ligou esta erva a Maria, sugerindo que ela estendesse a capa sobre um arbusto de alecrim, deixando as flores azuis (alecrim em inglês é RoseMary).

Quinta do Monte XistoA associação com a virgem Maria talvez explique melhor a sua ligação com o "afastar o mal" e atrair a "boa sorte" - outra razão pela qual está presente em casamentos e funerais. O alecrim é ainda associado ao amor para ser relembrado noutra peça de Shakespeare: Romeu e Julieta, não há melhor publicidade que um casal apaixonado.  Não deixa de ser curioso, que também no vinho, o alecrim parece estar ligado ao amor,  à memória e à família com melhor nariz do país ;) 

Quinta do Monte XistoHoje falo-vos do vinho Quinta Monte Xisto, pertencente a João Nicolau de Almeida.  João Nicolau de Almeida casa-se com Graça Eça de Queiroz Cabral em 1976 na cidade do Porto, ambos com ligações históricas fortes ao vinho.  O pai de João, Fernando Nicolau de Almeida, foi enólogo da Casa Ferreirinha, na qual criou o famoso Barca Velha. 

Quinta do Monte XistoPelo lado de Graça Eça de Queiroz Cabral as gerações passadas devem-se, principalmente, à família Rebello Valente e Pereira Cabral (Afonso Pereira Cabral, bisavô de Graça, era proprietário da Quinta do Paço de Monsul em Cambres e da Quinta do Cachão em São João da Pesqueira e a José Maria Rebello Valente, tetravô de Graça , foi oferecida a Quinta do Noval pelo Marquês de Pombal). Desta união vinicamente abençoada nascem 3 filhos: Mateus, João e Mafalda. 

Quinta do Monte XistoOs dois primeiros seguiram a alquimia dos vinhos e a mais nova seguiu a via da criatividade e cultura. Em 1993, João Nicolau de Almeida identificou um local extraordinário para a produção de vinho. Aparentemente era um sítio improvável, sendo literalmente um monte de xisto, de muito difícil plantação. Começou a comprar terrenos, pouco a pouco, com bastante dificuldade considerando que eram parcelas de pequena dimensão pertencendo a uma infinidade de proprietários. Foi necessário um trabalho digno de um investigador para identificar os mesmos, até conseguir formar a actual Quinta do Monte Xisto.  

Quinta do Monte XistoNesse processo, teve a ajuda dos filhos, que se foram aproximando de pastores e agricultores da zona, parceiros fundamentais na aprendizagem da cultura local. Em 2005, iniciam a plantação de vinha. Tudo fazia sentido: por cada camada de xisto que a surriba revelava, um novo projecto se formava. Um projecto familiar onde se conjugam as perspectivas e conhecimentos técnicos de duas gerações de enólogos. Conversam, falam, riem sobre o xisto, sobre o engaço, sobre tractores, sobre a vinha, o vinho e a vida. Nasce assim a João Nicolau de Almeida & Filhos, continuando a presença secular da família nos vinhos do Douro.

Quinta do Monte XistoFazendo jus ao lema da família, o da simplicidade no processo de vinificação para melhor traduzir a especificidade de um vinho, e do seu terroir, o Quinta do Monte Xisto 2017 (70€, 96 pts.) é dos vinhos mais puros que provei até hoje. Vinificado em lagares de granito com pisa a pé seguido de um estágio de 18 meses em pipas de 600 litros e envelhecido nos armazéns da família em Vila Nova de Gaia, é composto pelas castas Touriga Nacional (50%), a Touriga Francesa (45%) e o Souzão (5%).

Quinta do Monte XistoDe cor vermelha-grená, densa e opaca exibe no nariz cerejas, uvas esmagadas (aquele cheiro a vindima), esteva, giestas, sous-bois, fumo,  petrichor, grafite, xisto molhado e ... alecrim ;) No palato é cheio de frescura, intensidade, persistência e com uns taninos austeramente elegantes. Um vinho elegante, aveludado, macio, complexo, harmonioso e impactante. Foi o parceiro ideal de um Lombo de vitela, cebola roxa confitada e puré de pastinaga.

Quinta do Monte XistoEste é daqueles, que com certeza vou querer conversar no futuro, vou andar com alecrim nos bolsos para "afastar o mal" e atrair a "boa sorte" ;)

Esse alecrim que cheirei no copo é uma boa metáfora para o projecto que suporta este vinho:  amor,  memória e família. "Ser ou não ser" para os Nicolau de Almeida é muito mais que uma questão, é uma afirmação de identidade. Parabéns pelo vinho, foi o melhor que provei no Cá por casa.

Lombo de vitela, cebola roxa confitada e puré de pastinaga:

- Levem as pastinacas, o alho, as natas, o leite e a manteiga ao lume e deixem levantar fervura. Baixem o lume, tapem e deixem cozinhar até as pastinacas ficarem macias (10-12 minutos). Destapem e cozinhem até o líquido reduzir para metade (5 minutos) e temperem com sal. Passem num Passe-Vite até obterem um puré homogéneo;

-Para o jus de carne, usem alguns ossos ainda com pedaços de carne (peçam no talho, se for de novilho ou borrego, melhor); cebola, cenoura e aipo partidos grosseiramente; e deixem cozinhar por 2 horas em lume brando. No final da cozedura coem o preparado para ficarem apenas com o liquido. Juntem manteiga, sal, pimenta, vinho do Porto e um pouco de limão. Deixem reduzir para metade em lume brando;

-Partam a cebola roxa a meio (como na imagem) e grelhem num fio de azeite em lume brando (10 minutos de ambos os lados). Cortem um pouco as bases de modo a poderem fixar a cebola ao prato (se tiver a base vai cair). Com a base superior (a que vai ficar voltada para cima no empratamento) virada para baixo tostem um pouco em lume alto durante 1 minuto;

- Grelhem os lombos de vitela (lume alto durante 2 minutos de cada lado) em azeite, temperando com sal e mistura de pimentas.